terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cosmética RETRÔ.



Alguns produtos resistem nas penteadeiras das moças há mais de 100 anos. Mas será que eles são realmente eficazes ou apenas alimentam o fetiche de quem não resiste ao charme do passado?

      Marina Gomes nunca levou fé na música de Dorival Caymmi. " Não era bonita com o que Deus me deu", brinca a advogada de 32 anos. Na adolescência, Marina tinha acne e cabelo de piscina. Gastava litros e litros de Neutrox 1 para cabelos normais, embora os seus fossem extremamente secos.
      A cada espinha que brotava no rosto, ela recorria ao ponte de Minâncora guardado na gaveta do lavabo. Roubava creme Pond's da mãe e trocava qualquer desodorante por um bom Leite de Rosas.
      Dos 12 aos 32 anos, foram duas décadas de muita experimentação, alguma insistência e poucos divórcios. " Que eu me lembre, só o Neutrox eu troquei, por um condicionador caríssimo da L'occitane", ri. O Pond's saiu de linha; a Minâncora virou creme para ressecamento nos pés; e o Leite de Rosas continua reinando sobre a prateleira.
     No meio da maquiagem importada, não houve demaquilante bifásico que substituísse a clássica garrafinha rosa da tampa branca. " Para algumas coisas a gente foi encontrando produtos melhores, mas é difícil largar o que você já conhece e funciona". É fato. 
     Uma pesquisa elaborada pelo Programa de Administração do Varejo (Provar), da Fundação Instituto de Administração (FIA), mostra que 78% das mulheres são fiéis às marcas que confiaram ao armário do banheiro. E outra: 81% delas não abandonam o potinho de estimação por outro só porque esse "outro" tem uma embalagem mais moderna.
      Na dúvida entre o layout retrô e o atual, muitas até preferem o retrô. E a razão disso é puramente emocional. Nada tem mais cara de avó do que aquela latinha marrom de polvilho antisséptico Granado despejado no sapato até que a palmilha dos pés ficasse branca.
     Aliás, só mesmo a embalagem do sabonete Phebo. Ou o próprio sabonete Phebo escuro e oval, à base de glicerina. O aroma de cravo, canela e essência de pau-rosa da Amazônia é inconfundível.

Leia mais clicando em Mais informações.

TEMPO DO FUSCA

     " A fidelidade do consumidor não tem a ver apenas com a confiança no produto, mas com o fetiche pela marca e pelo que ela representa", explica Antônio Celso da Silva, presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC) e diretor financeiro da Payot Cosméticos. 
     " Tem gente que prefere a máquina de escrever ao computador, anda de Fusquinha mesmo sabendo que já existe New Honda Civic. É porque gosta, confia, acha aquilo mais seguro".
     Então façamos a seguinte dedução lógica: 1- Por mais que a Olivetti e o Mcintosh imprimam um mesmo texto em duas folhas de papel, a estética final em cada uma é diferente. 2- E por mais que o Fusquinha e o New Honda Civic andem no asfalto, não dá para equiparar a potência, o conforto e a velocidade dos dois. Pois essa também é a lógica da cosmetologia.
     As loções e talquinhos da vovó têm eficácia, mas nada se compara ao que a tecnologia da beleza avançou nos últimos 20 anos.
    " No caso dos cremes, não têm apelo anti-idade, mas poder de hidratação. E para essa finalidade funcionam, sim", acrescenta Antônio Celso. Basta olhar a fórmula para observar que os cosméticos centenários e as linhas mais jovens têm ingredientes similares. " O problema é que, enquanto os primeiros são pesados, oleosos, os últimos têm bioaditivos tecnólogicos que são absorvidos rapidamente pela pele".
     Não seria lógico, então, que o potinho de Minâncora acompanhasse a tendência de mercado e se tornasse mais fluido e leve? Não, não seria. Embora todo e qualquer cosmético se submeta periodicamente aos testes de eficácia e segurança da Anvisa, ninguém quer correr o risco de mudar a fórmula ou perder seu público cativo.
     A própria Payot, em 2003, tentou tirar de linha o clássico Payot nº 2. Em semanas, choveram reclamações de consumidoras indignadas e a marca voltou atrás.

DA POMADA AO ROLL-ON

       A vida longa dos rótulos antigos, sejam pastosos ou líquidos, está justamente no fato de que eles não só mantiveram a receita de cem anos como ampliaram a linha.
       A quase centenária Minâncora fez isso. Deixou de lado o mito de que a pomada à base de cânfora e óxido de zinco serve para tudo e criou desodorantes, esfoliantes, cremes para os pés. O Leite de Rosas lançou até o roll-on e aerosol. Seu primo, o Leite de Colônia, hoje comercializada bálsamos labiais, óleos de banho e shampoos.
      " De maneira geral, estas são marcas fortes por serem cosmeticamente agradáveis e de bom preço no mercado, mas não atuam como prevenção e tratamento", lembra a professora Vitória Regina Rêgo, chefe do serviço de dermatologia da UFBA. " A própria Granado pegou o nome que ela já tinha consolidado e ampliou. Criou sabonetes, shampoos neutros que eu mesma recomendo a pacientes com intolerância a ingredientes de outras fórmulas".
       O polvilho antisséptico registrado em 1903 pelo famoso sanitarista Oswaldo Cruz é o melhor exemplo de como produtos do século passado conseguiram se manter. Apesar do toque de sofisticação impresso às lojas de franquia, é o conceito vintage que sustenta a Granado. Dona da Phebo desde 2004, a empresa conserva até hoje as caractéristicas do sabonete.
       Não à toa, a Phebo é líder no seguimento de sabonetes glicerinados, com 50% da participação no mercado.
       " Nenhum deles faz mal, mas alguns têm equivalentes melhores. Como dermatologista, não vou receitar Leite de Rosas se posso indicar um produto que, além de tirar a maquiagem, trata a pele". Ela desaconselha Minâncora para acne e creme Nivea como antirrugas.
       A primeira vai obstruir os poros e aumentar a inflamação, enquanto o segundo hidrata, mas não previne as cicatrizes da idade como as loções e fluidos receitados por um especialista.
      Mas quem vai falar mal da Seiva de Alfazema? Que elanão perfuma tão bem quanto o Chanel nº 5? Dá até para comprar os dois aromas, estabelecer parâmetros químicos de cada fórmula, falar das essências, esculhambar uma e elogiar o outro... Só que, no fundo - e isso serve para toda e qualquer frasquinho idolatrado por nossas mães e avós - , é como criticar alguém que prefere o Fusca ao New Civic. O fetiche fala mais alto.


Texto: Emanuella Sombra - esombra@grupoatarde.com.br

Fonte: Revista MUITO/ A TARDE. #146

Nenhum comentário:

Postar um comentário